domingo, 23 de Agosto de 2009

(...) Tenho traficado envergonhadamente os meus dias - para nada!
Dei a minha companhia a quem assim pretendeu.
Raramente tomei posse
(de mim!)
Eu não sou mais do que
um veículo
Verdadeiramente eu - sou a estilhaços.

Estilhaços histéricos que retinem patetas patetas patetas patetas!
Engulo o pathos universal e as mães e as filhas e a culpa e a vontade
e os ombros doridos e as pernas tortas e o cuspo em fio e os cabelos brancos
e vomito merda, só merda

segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

Sagitários de fogo na ponta dos meus dedos,
não vi
As minhas mãos torcidas de fúria
petulante
desajeitada
não vi.
Pela boca entreaberta da estupidez escorre em mim
- pende larga, escancarada

resistência não é código culpado de desejo
não, não, lamento
resistência é resistência

quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Japão

Desata-lhe as mãos de branco. Por favor.
Da cintura nasce a gorda flor
A boca rasga, curiosa
Sem palavra, um traço de verde vivo. Sim.
Não tem acidez; arde de tão doce.
Rodopia de boca aberta, fitando o tecto
A sua brusca rectidão branca surpreende a nossa inocência.
Sim.
O canto negro pela boca, pelos ouvidos.
Sim! Escorre ondula
O espaço é uma cratera de eco morno.
Não existe a palavra.
Empurramos em volta o contínuo aquoso de signo vago.

terça-feira, 14 de Julho de 2009

Grécia

O vaso estava demasiado cheio. Demasiadas coisas. Trepavam por cima das costas das irmãs e mergulhavam de novo, empurrando-se e sovando-se com um restolhar de papel. As suas minúsculas mãos informes tremiam e gesticulavam violentamente. Mergulhou a cabeça no grande vaso de barro. Papel para um lado, papel para outro - nada. Tinha de lá estar.
Deixa para depois.
Lavou as mãos num nó de pardo. Não gosto do que subentendes. A tua condescendência pela minha capacidade de acabar as coisas é insultuosa.
Fugiam para debaixo das mesas e esfregavam-se nos pés dos móveis. A cómoda rangeu de dor.
Não o disse por mal.
Eu sei.
Agora assustaste-as.
Não havia nada. Papéis e um rebordo de castanho cobre que zunia metálico quando se raspava com as unhas. A culpa é toda tua, manipulador de augúrios. Deixa as minhas mãos. A tua miúda dissimulação tem vocações absurdas.

O imenso escorpião de branco passa os dedos pelas paredes; diz que há muito ar em nossa volta para acomodar o silêncio.

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Gostava de ser dessas pessoas que encontram coisas. Que descobrem coisas e criam coisas.

domingo, 12 de Julho de 2009

Quero um revolução; uma grotesca e exuberante revolução. A revolução tarda se ninguém a fizer. Eu tenho a energia. Tinha. Sei que já tive alguma coisa. A intromissão é um banho de ridículo. Estás encharcado à porta de casa; tens na mão a invenção salvadora. És um grande profeta. Que cansaço. Não há vontade de fazer, não há ideia, não há força criadora. O meu pensamento crítico é um baile de estropiados.
Não há direcção. As palavras são lentas e mornas. Nem quente, nem frio. O pai espreita por cima do ombro. Sim, pai. Sim, mãe. Eu sou a vossa filha e mantenho-me completamente no lado direito da sociabilidade. Eu sou obediente. A palavra é curta e incerta. Eu não tenho razão alguma para escolher isto ou aquilo. O que é preciso é escolher. Não tenho quem não fale comigo. Também eu preciso de silêncio, mas não há quem atenda este tipo de pedidos. Tenho sono. Não tenho tempo para isto. Tenho um problema com vírgulas.

sábado, 6 de Junho de 2009

Havia por fim logrado escondê-la; as longas e ossudas pernas de branco venoso torciam-se debaixo do corpo curvado. Começara já a diminuir; as mãos implodiam, secas e rígidas, como se subitamente envelhecidas. Um casulo.

Chegou-se à janela e empurrou-a, saindo para a varanda. Tirou do chão o cigarro. Os seus maxilares moviam-se como se ruminando; de igual modo mastigava ar e fumo, e os pesados ossos da sua compleição rodavam como nora. O homem vagaroso abandonara o casulo; nada mais poderia fazer por ele.

Antes de sair, rasgou as lágrimas que tinham esborrachado na mesa de vidro tinto. Eram inúteis. Os seus braços escuros torceram-nas sem esforço.